Ataques terroristas, Bolsa-Família e Fight Club

Quase três mil pessoas (2.996 — eu não comecei o texto com esse número porque acho feio começar textos com algarismos) morreram durante os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Mas esses não foram as únicas fatalidades que decorreram da missão suicida mais bem sucedida da história do terrorismo. 

Eu sei o que você vai pensar: nas mortes que ocorreram meses depois de setembro, de disseminação hematogênica de ostemielite crônica que iniciou por causa de uma pequena fratura no dia do acidente (foram milhares de feridos!). Ou nos velhinhos que morreram um pouco mais rápido do que iriam por causa da inalação de poeira e fumaça naquele dia. Ou nos soldados americanos, afegãos e iraquianos que morreram na Guerra do Afeganistão e na Guerra do Iraque logo após os ataques. Ou nos jihadistas que talvez tenham morrido antes de 2001, enquanto se sacrificavam para preparar o grande evento de 11/09/2001. E por aí vai. 

Mas eu duvido que você tenha considerado que, nos meses subsequentes ao ataque, 327 pessoas tenham morrido por mês nos Estados Unidos por terem decidido viajar de carro, em vez de viajar de forma muito mais segura, de avião, por causa do medo de avião que os ataques inculcaram nos estadunidenses. Ao longo do tempo, o número de pessoas que morreram em acidentes de carro em decorrência indireta dos ataques pode ter chegado a 2.300 — pouco menos do que as vítimas diretas do atentado terrorista. 

Esse tipo de consequência indireta de grandes eventos se aplica muito bem a políticas econômicas e sociais. Parece uma ótima ideia taxar grandes riquezas (vamos tirar dos ricos e dar aos pobres, muahahaha), mas quais são os efeitos indiretos que isso pode ocasionar — evasão de divisas, fuga de capital intelectual etc.? Taxar grandes riquezas é bonito de falar, mas feio de fazer. Moralismo sem eficiência

Por outro lado, existe essa ideia de que dar dinheiro aos pobres faz com que eles “se acomodem”, percam motivação e se tornem eternos dependentes dos auxílios do governo. Nada menos verdadeiro do que isso. O Bolsa-Família, por exemplo, é um programa de distribuição de renda que diminui o desemprego, fomenta a economia das comunidades das famílias que o recebem e aumenta o nível educacional dos jovens beneficiários. Efeitos indiretos, às vezes pouco visíveis. 

Mas esse quadro nunca fica claro quando você examina anedotas. Quem estava tomando um Caffè Latte tamanho Venti em algum Starbucks do Financial District e viu aqueles aviões baterem nas Torres Gêmeas tem um bom motivo para temer aviões, apesar de todas as estatísticas contrárias. Quem conhece alguém que burlou as cotas de ações afirmativas para entrar na faculdade tem todos os motivos do mundo para chamar a política de ineficaz e malfeita, apesar de todas as evidências a seu favor. 

Anedotas têm um grande potencial de nos levar a conclusões erradas. Ainda assim, somos muito mais tocados por elas do que por estatísticas. Porque gostamos de estórias, não de números. 

Por isso acreditamos que podemos ser Steve Jobs, Paulo Coelho, Luísa Sonza ou Leticia Bufoni. As estórias dessas pessoas nos fazem acreditar que é possível. Acompanhamos suas biografias, contaminadas com doses cavalares de viés da sobrevivência, e acreditamos que isso também pode acontecer com a gente, e que um dia seremos milionários, deuses do cinema, rockstars. 

Mas nós não seremos nada disso. E nós estamos lentamente caindo na real. E nós estamos muito, muito putos

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