A alucinação fisiológica dos olhos

Nossos cérebros estão constantemente alucinando o que vemos. Nada é o que parece. Mas você não consegue parar de se enganar.

 

Quantas cores existem?

Com certeza você já teve dificuldade em diferenciar um laranja de um amarelo ou de um vermellho. Afinal, o laranja nada mais é do que um vermelho amarelado.

Qual é o limite entre o púrpura e o roxo? Ou são a mesma coisa? E o lilás? E o rosa-choque?

Se você é um advogado, provavelmente isso faz pouca diferença para você. Mas se você é um designer, você deve ser capaz de nomear várias outras tonalidades além dessas.

Já se você for um índio Pirahã, isso não faz a menor diferença. Os Pirahã são um grupo curiosíssimo, principalmente para o gosto dos linguistas. Há quem diga que a língua Pirahã provou errada a teoria da gramática universal. À parte dessa controvérsia, os Pirahã são notáveis pela seu idioma, que é muito… simples, na falta de uma palavra melhor. Por exemplo, eles têm apenas três vogais, enquanto o português brasileiro tem pelo menos (deixa eu pensar) 12, contando os sons nasais.

Essa simplicidade é ainda mais notável quando falamos de léxico. Os Pirahã têm uma mesma palavra para “pai” e mãe”, e não têm palavras para tios e primos, muito menos para cunhados, sogros e noras (eles não se importam com esses rótulos). Eles também parecem não ter palavras para numerais, usando simplesmente qualificadores como “muito” e “pouco” ou “maior quantidade” e menor quantidade”.

Idiossincrático? Eu diria bizarro. Mas não quero parecer etnocentrista.

Como você poderia supor, eles não têm muitas palavras para cores. As palavras que eles têm são “escuro” e “claro” e duas expressões que parecem significar vermelho/roxo/amarelo e verde/azul. A expressão para vermelho/roxo/amarelo seria “igual sangue” e a expressão para verde/azul seria “temporariamente imaturo”.

Ou seja, para dizer “olha aquele pássaro amarelo” eles diriam “olha aquele pássaro igual sangue”. Se “igual-sangue” pode ser considerada um nome de cor ou não, essa é um discussão para linguistas (e eles realmente discutem isso!).

Bizarro? Sim, bizarro.

 

O mar vermelho de Homero

No final do século XIX, William Gladstone publicou uma análise da obra clássica de Homero em que ele chamava a atenção para alguns termos que o poeta usava para descrever cores: por exemplo, “o mar escuro de vinho”. Gladstone teorizou que os antigos gregos não tinham nomes qualitativos para cores como nós temos, mas usavam quantitativamente termos como “claro” e “escuro”.

O número de termos que um idioma despende para categorizar cores é variável. Alguns dedicam vários nomes (azul, verde, vermelho, amarelo, laranja, marrom, roxo, violeta, lilás, rosa, cinza) enquanto alguns têm apenas três ou quatro nomes no total.

Interessantemente, os cientistas parecem capazes de predizer quais cores serão essas. Parece haver uma “ordem de evolução” dos termos para cores.

Isso é de certa forma intuitivo, pelo menos em certo grau. Eu esperaria que uma linguagem que tem apenas dois termos para definir cores tenha algo que se pareça “preto” e “branco”, ou pelo menos “escuro” e “claro”. Seria muito improvável que essas cores fossem “violeta” e “roxo”.

É exatamente isso que acontece. Os termos mais “primitivos” para cores são “escuro” e “claro”. Depois surge o vermelho (que se estende ao que chamamos de roxo), depois azul/verde. É nesse estágio que estão os Pirahã.

É portanto perfeitamente possível que Homero visse o mar da cor vermelha, assim como o vinho. Quer dizer, pelo menos teoricamente.

 

Alucinações bem-intencionadas

Quando eu falo que Homero “via” o mar da cor de vinho, eu não quero dizer literalmente. Não quero dizer que ele não percebia a mudança de cor entre o mar e um barril de vinho, apenas que para ele eram tonalidades de uma mesma cor (assim como podemos diferenciar diferentes amarelos e vermelhos e verdes).

É mais uma deficiência léxica do que falta de sutileza perceptiva, assim como quando usamos o termo “ejaculação feminina” para nos referirmos a algo fisiologicamente muito distinto de uma ejaculação propriamente dita.

Curiosamente, sabemos bem sabidamente que o ser humano possui três qualidades de cones — células no olho especializadas em perceber cores. A partir delas, porém, vemos inúmeras tonalidades.

As impressões dos comprimentos de luz nos cones não são simplesmente imprimidos na nossa consciência. A percepção, da cor e dos outros sentidos, não é de forma alguma um processo passivo. O cérebro constrói ativamente o que vemos, ouvimos e sentimos. Como tudo que envolve a mágica do cérebro, essa construção pode ser profundamente influenciada pelas nossas lembranças, estado emocional e drogas, por exemplo.

Mas não vamos entrar nisso ainda. Vamos nos ater à alucinação fisiológica do cérebro, à interpretação que o cérebro normalmente faz das informações que o olho lhe transmite.

O exemplo mais fácil pra mim é o deste tabuleiro de xadrez:

tabuleiro1.png

Acredite se quiser, as casas marcadas com A e B são exatamente da mesma cor.

Exatamente.

Eu sei que você não vai acreditar, então vou mostrar:

tabuleiro 2.png

Nosso cérebro não aceita prontamente os estímulos dos olhos. Ele ativamente cria o que ele acha que é a imagem que melhor corresponde à realidade. O nosso cérebro tenta evitar que nossos olhos nos enganem.

Nossos cérebros estão constantemente alucinando nossa realidade.

 

A divisão de tarefas do córtex visual

No livro Um antropólogo em Marte, o neurologista Oliver Sacks explora como algumas doenças neurológicas podem atingir áreas muito pequenas do cérebro, especializadas em tarefas bem específicas do processo de criar a visão.

É possível, por exemplo, que a pessoa perca a capacidade de ver movimento. Ela enxerga tudo normal, mas não vê nada se movendo. Em um instante o carro está na esquina, no outro ele está no meio do quarteirão, e não há nada entre os dois momentos.

Nossa intuição nos leva a pensar que o deslocamento do carro e o consequente deslocamento da luz que ele reflete imprimiria seu movimento em nosso senso de visão. Mas, como já conversamos, não é assim que nossos sentidos funcionam.

Existem áreas em nosso cérebro especializadas apenas em reconhecer letras!

Imagine alguém que enxerga perfeitamente bem, mas não consegue ver letras. Não se trata de não saber ler: é simplesmente não perceber que o que se vê são signos escritos. Não basta ver o reflexo da luz: para ver letras, o cérebro precisa saber que lá há letras.

O cérebro constrói a nossa visão “final” a partir do trabalho de diversas partes do cérebro, responsáveis por tarefas bem específicas: uma parte interpreta comprimento de onda de luz, outra associa o grau de iluminação, outra coloca o movimento etc.

 

Distribuindo atenção e ignorando ruídos

Quando nós treinamos muito alguma habilidade, nossa perícia aumenta. Isso é válido para atividades motoras: crianças pequenas não têm coordenação nem para levar a mão à boca, antes de aprenderem a fazer isso, e aprendem a andar chutando o ar (por falta de controle sobre as próprias pernas). Com o tempo (e a prática), essas habilidades evoluem: andar de bicicleta, jogar futebol, colorir dentro das margens, recortar fora das margens etc.

Isso também vale para habilidades sensoriais: nós somos muito habilidosos em reconhecer características de rostos de pessoas, e somos perfeitamente capazes de reconhecer dois rostos diferentes de pessoas que não conhecemos. Porém, não somos tão bons em reconhecer rostos de chimpanzés — é uma habilidade que não treinamos.

Os rostos de dois chimpanzés têm tantos detalhes quanto dois rostos humanos — ainda assim, podemos reconhecer essas diferenças apenas em um dos casos.

Elas estão lá. Mas nós não as vemos.

Se mostrar uma chapa de raios-x para um radiologista e para um leigo, é bem provável que o radiologista “veja” várias coisas que o leigo não terá notado. É difícil dizer se ele não viu ou se ele apenas não reconheceu que aquilo era uma alteração. Pela minha experiência, realmente nós não vemos muitas coisas que os médicos mais experientes vêem nos raios-x (e não apenas não as reconhecemos como alterações). Depois que sabemos que a alteração está lá, somos capazes de reconhecê-la; mas antes de alguém mais experiente dizer que ela está lá, simplesmente ficamos cegos para ela.

É um pouco por isso que toda pessoa que interpreta um exame médico de imagem exige a “história” do paciente. Não é apenas para correlacionar os achados do exame à clínica: a clínica efetivamente é capaz de ajudar o radiologista a ver o que o exame pretende mostrar.

O mundo externo tem estímulos demais e nosso cérebro precisa ignorar vários deles para dar atenção ao que realmente importa. Quando sabemos o que estamos procurando, é muito mais fácil achar.

Ou seja, nossa visão está bem, bem, bem lonjona de ser uma simples impressão de reflexos de luzes na retina: o que vemos depende de uma intricada rede neuronal que recebe a informação do olho, escolhe o que é importante e tenta encaixar o resultado em um modelo que se encaixe nas informações dos outros sentidos e em nossos modelos mentais.

Nossa visão é uma alucinação descarada.

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