Expressões em francês e moléculas cerebrais

Eu tenho um texto que eu não gosto muito porque o resultado final ficou ruim, mas cuja ideia eu adoro: L’esprit de l’escalier e as catecolaminas. Você vai reparar que l’esprit de l’escalier é uma expressão francófona e catecolaminas são moléculas que agem como neurotransmissores no cérebro (e em outros lugares). Daí, o nome deste texto.

Eu gosto muito, muito de psicologia e uma vez descobri, enquanto estudava os possíveis efeitos da maconha na história natural da esquizofrenia, que nós temos essa enzima, catecol-O-metiltransferase (COMT). A COMT serve para degradar catecolaminas, ou seja, para destruir dopamina e noradrenalina. Quando a enzima destrói o neurotransmissor, ele não age e sua ação é mitigada, claro.

O que é especial sobre a COMT é que ela tem um polimorfismo genético, ou seja, existem dois tipos de COMT ligeiramente diferentes. Isso é comum na natureza. A doença falciforme, por exemplo, é causada por uma mutação no gene que produz hemoglobina, o que muda ligeiramente sua estrutura e faz com que a hemácia se torne falcizável em ambiente com pouco oxigênio. Mas a hemoglobina mutada continua funcional em sua principal tarefa, que é carregar oxigênio. Por isso, essa mutação é compatível com a vida.

Vamos dizer que o gene que a maioria de nós tem é o gene M (maioria) e o gene que causa doença falciforme é o gene F. Você recebe metade do seu genoma do seu pai e metade da sua mãe, sendo que ambos te dão uma receita completa de ser humano; ou seja, você tem duas cópias de cada gene. No caso do gene da hemoglobina, você pode ser MM (sem doença), MF (traço falciforme) ou FF (anemia falciforme). Essas versões diferentes de cada gene são chamadas de “alelos”.

O polimorfismo da COMT funciona nesse sentido, porém, seu efeito é menos brusco do que o do gene falciforme. Você pode viver normalmente com qualquer um dos alelos. Mas eles têm um pequeno efeito sobre seu cérebro e, consequentemente, sobre seu comportamento e sua personalidade. As variantes da COMT talvez sejam capazes de prever até doenças mentais gravíssimas, como a esquizofrenia (mas talvez não, porque essas coisas são complicadas).

Vamos chamar os alelos da COMT de F (forte) e F (fraco). Não, pera. Vamos chamar de F (efão, forte) e f (efinho, fraco). A COMT F é potente e degrada muita catecolamina e a COMT f é fraca e degrada pouca catecolamina. Catecolamina é dopamina e noradrenalina, como já dissemos.

Tenham ciência de que estou simplificando bastante a fisiologia do processo. Há muitos, muitos detalhes omitidos aqui.

Vamos fazer um recorte didático e falar da dopamina (DA). A DA é um neurotransmissor incrível, relacionado a funções importantíssimas do cérebro, versátil a ponto de influenciar motricidade, motivação, aprendizado (inclusive vícios), atenção e até lactação!

Tem uma região do nosso cérebro, o córtex pré-frontal (CPF), que é a grande responsável por várias tarefas executivas: investir atenção, aprender tarefas, abstrair padrões, suprimir impulsos etc. É, grosso modo, simplificando bastante, responsável por muito do que chamamos de “inteligência”. Inteligência de alguma forma pode ser vista como “proeza em tarefas executivas”.

A DA tem um papel importante na qualidade das tarefas executivas do CPF. Sua eficiência depende de um “equilíbrio fino” da ação dopaminérgica local. Ou seja, DA de menos é ruim, mas DA de mais também atrapalha

O CPF é especialmente dependente da COMT para limitar a ação dopaminérgica. Outras áreas cerebrais, como o núcleo accumbens, também utilizam DA e precisam de algo para controlar seu excesso, mas eles lançam mão de outros sistemas, como os transportadores de DA (que é onde a cocaína age). No CPF, eles têm um papel menor e a responsabilidade da COMT aumenta.

Pesquisas mostram que pessoas que têm o alelo COMT f se dão melhor em tarefas cognitivas (ou seja, são mais “inteligentes”). A enzima é mais fraca, sobra mais DA e a DA no CPF chega naquele ponto ótimo em que a função executiva é mais eficiente. Os portadores do alelo F, por outro lado, têm menos DA no CPF e isso resulta em capacidade cognitiva sub-ótima.

Relembrando, esta é uma grande simplificação. A psicologia humana é complexa e a inteligência envolve muito mais que um só gene, uma só enzima, um só neurotransmissor e uma só topografia do cérebro.

Certo, então quem tem COMT f tem mais DA no CPF e performa melhor em tarefas cognitivas. Mas tem um porém: situações estressantes podem aumentar a concentração de DA no CPF. E aí?

E aí que quem tem a variante F, que tinha menos DA no CPF, passa a ter uma quantidade boa do neurotransmissor, otimizando seus processos cognitivos. O portador da variante f, por outro lado, tinha DA já otimizada: o estresse faz com que ela aumente além dos níveis ótimos e o rendimento executivo diminui.

Ou seja, o COMT F performa melhor sob estresse, enquanto o COMT f perde eficiência.

Stahl, uma das maiores autoridades do mundo em psicofarmacologia, chama essa dicotomia de warriors v. worriers: guerreiros v. preocupados. Os guerreiros não se incomodam com o estresse, na verdade, eles gostam dele, porque esse estado potencializa suas habilidades. Os preocupados, por outro lado, trabalham bem em situações normais, mas perdem performance se expostos a estresse.

Além de psicologia e psicofarmacologia e neurociência, eu gosto também de literatura e linguística. Por isso eu tentei ligar essa historinha da enzima COMT com uma expressão que li em alguma obra de Chuck Palahniuk, um dos autores de ficção que eu mais gosto.

Nesse livro ou conto, Chuck apresenta a expressão l’esprit de l’escalier, ou seja, o espírito da escada. Sabe quando você se vê numa discussão e seu contendente fala algo que o deixa sem resposta e você fica lá, com cara de bobo, sem saber o que dizer? Então, aí a discussão acaba, você se sente humilhado, e vai embora remoendo as palavras ditas e ouvidas. Nesse momento, a resposta perfeita, o contrargumento matador vem à sua mente! Porém, já é tarde demais! Essa realização tardia do que deveria ter sido dito e não foi, esse é o espírito da escada.

A expressão não foi inventada por Chuck (isso seria bobo). Ela realmente existe, apesar de não ser comumente usada nos países francófonos, pelo que sei. Sua gênese seria o ensaio de um escritor chamado Diderot, do século XVIII, onde ele descreve como ele próprio, um homem sensível, ficou sem palavras após ouvir o comentário de um colega durante um jantar. Ele diz que “perdeu a cabeça e só a reencontrou no final da escada”.

Aqui, cabe explicar porque a escada é tão importante. Na época de Diderot, as pessoas muito ricas tinham salões em suas casas que serviam especificamente para receber convidados. Esses cômodos normalmente ficavam no primeiro piso, acima do térreo. Ou seja, o convidado tinha que descer as escadas da casa do anfitrião quando deixava o jantar — simbolicamente, descer as escadas era sair do evento. Uma vez no fim da escada, definitivamente fora do jantar e impossibilitado de voltar, o espírito da escada se apresenta.

Provavelmente, Diderot tinha a variante f da enzima COMT: um homem inteligente que não lida bem com pressão emocional. Fosse COMT F e teria respondido seu litigante sem titubear.

Malditos desequilíbrios catecolamínicos e esse espírito da escada!

Hubert Robert 003.jpg

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