Vale a pena fazer residência médica?

Quando eu fazia direito (e era feliz), uma vez me falaram que o ano mais difícil do curso era o sexto. Como a graduação em direito só dura cinco anos (regularmente), a moral da frase era que o primeiro ano de formado era o mais difícil. Afinal, depois de 20 anos seguindo uma escadinha bem pronta (ensino fundamental, médio e superior), o recém-bacharel em direito subitamente se encontra em pleno controle de seu destino — e isso complica bastante a sua vida.

Na medicina, isso ocorre menos. Ao contrário dos meus colegas da faculdade de direito, a maioria dos meus colegas médicos tinha um plano certeiro para o sétimo ano: entrar na residência médica. A escadinha bem pronta que seguimos a vida inteira continua na pós-graduação em medicina: temos pelo menos mais três anos de estudos em um ambiente bem previsível, talvez cinco ou sete. Depois, aí sim, teremos que lidar com a terrível responsabilidade de definir nosso futuro.

Assim como a maioria dos meus colegas, fazer residência era um caminho confortável (do ponto de vista da escolha) e esperado para mim. Prestei anestesiologia em São Paulo e passei, bem posicionado — poderia escolher entre diversos hospitais públicos da capital (onde queria) e do interior. Eles me ofereceram a vaga e eu só precisava dizer “sim”.

Mas decidi dizer “não”.

***

Tem dias que eu digo “não”
Inverno no meu coração
Meu mundo está em tua mão
Frio e garoa na escuridão
Sem São Paulo
O meu dono é a solidão
Diga “sim”, que eu digo “não”

— São Paulo – Banda 365

Se eu tivesse que escolher um motivo único pelo qual não fui para São Paulo fazer residência, seria meu podcast: eu já havia combinado com Henrique que produziríamos o programa, e teria que ser em Uberlândia. Além disso, fui selecionado pelo PMIC de Uberlândia para produzir o podcast do blog, e também teria que fazer isso por aqui.

Existem outros motivos, claro. Por mais que seja ruim confessar, comodidade é um dos grandes. Por mais que eu adore a ideia de morar em São Paulo, sair do interior de Minas e ir sozinho morar na selva de pedras dá trabalho — e ainda mais quando você põe na conta o trabalho natural de um residente do primeiro ano. Não que seja impossível nem difícil demais, mas certamente é incômodo. 

A oportunidade que eu larguei também importou na decisão. Apesar de ter conseguido vaga em bons hospitais, não foi na melhor instituição de ensino do país. Eu dificilmente teria deixado de assumir uma vaga na USP. Mesmo com o incômodo de ter que mudar para São Paulo. 

A princípio, depois que decidi não assumir minha vaga, meu plano era o mesmo de vários colegas que não começam a residência logo depois da graduação: trabalhar um ano, estudar e prestar de novo as provas no final do ano. Porém, poucas semanas depois de começar a trabalhar, eu já pensava cada vez mais em uma opção bem menos popular: nunca fazer residência.

***

Já não há mais culpado nem inocente
Cada pessoa ou coisa é diferente
Já que assim, baseado em quê
Você pune quem não é você?

— Novo Aeon – Raul Seixas

Existem vantagens e desvantagens em fazer uma residência médica e a forma como elas pesam na decisão de cada médico depende bastante de suas prioridades e ambições. 

O que você quer da vida? Você quer ser aquele médico conhecido e admirado por todos os colegas, aquele a quem todos recorrem por ajuda quando a coisa aperta, a última opção para resolver problemas complexos que outros bons médicos não conseguiram resolver? Para ser esse médico, você provavelmente terá que fazer residência médica (e também mestrado e doutorado, além de fellows, especializações etc.). Por outro lado, talvez você queira apenas atender no PSF de um bairro da sua cidade, em um pronto-socorro de média complexidade ou em uma clínica popular, trabalhar algumas horas por semana e juntar algum dinheiro. Neste caso, a residência ainda é uma possibilidade, mas não é uma exigência. 

O que você ama fazer? Você quer atender idosos com diversas comorbidades ou operar cérebros? Quer atender uma família inteira de pessoas saudáveis com exames de rotina ou colocar ossos em seus devidos lugares? Boa parte da medicina pode ser feita com competência pelo generalista, mas outra boa parte requer especialização, e a residência às vezes é a melhor forma de se especializar. Se seu sonho não é simplesmente ser médico, mas ser cirurgião vascular, nem faz sentido pensar em não fazer residência (a não ser que esteja revendo seu sonho, o que é perfeitamente normal). 

Para mim, pessoalmente, essas são as duas grandes razões pelas quais um médico deveria escolher, sem dúvidas em sua mente, por fazer a residência: estar no topo (técnico) absoluto de sua área de expertise ou fazer um trabalho bem especializado, que exige um treinamento bem específico e majoritariamente prático.

Mas a maioria dos médicos não escolhem sua residência médica baseados nisso. Eles escolhem fazer residência médica porque é a decisão mais fácil (por inércia), porque querem um título de especialista (e a residência parece ser o “caminho normal”) e porque têm medo de serem julgados pelos pares por terem feito pós-graduação (como julgavam outros profissionais quando eram estudantes).

***

Milhões de anos passando e não param de passar
Ano novo vem chegando, este ano já vai terminar
A Terra segue girando e não para de girar
Primavera vem chegando, o inverno já vai terminar

— Enquanto uns ficam falando – Itamar Assumpção

Olhando de cima e de longe, fazer residência médica tem um ROI alto: são três (ou cinco, ou sete) anos de treinamento para adquirir um conhecimento superespecializado, e capitalizar em cima das suas novas habilidades pelo resto da vida, com a oportunidade de capitalizar ainda os “juros compostos” desse conhecimento (você vai ficar cada vez melhor em fazer algo superdifícil, e vai aprender a fazer tarefas cada vez mais difíceis dentro da sua área de especialização, e vai portar habilidades cada vez mais únicas e valorizadas). Três ou cinco anos não são nada, se isso vai o tornar um hemodinamicista que fará cateterismos pelos 30 anos seguintes, enquanto seu colega sem residência médica se mantém dando plantões “na porta” ou atendendo em ambulatórios de saúde da família, atividades com muito menor valor agregado.

Olhando de perto, que geralmente é o jeito mais errado de olhar, fazer residência parece burro. Eu ganho seis ou sete vezes mais do que meus colegas residentes, considerando mais ou menos a mesma carga horária. Mas o pior nem é isso: eu tenho a impressão de que a minha curva de aprendizado é tão íngreme quanto a deles, talvez mais. Eu provavelmente intubo mais pacientes na UTI onde trabalho do que intubaria como residente de clínica ou de cirurgia na UFU (mas não como residente de anestesiologia). Meus colegas são quase todos mais experientes (ainda que possivelmente sejam menos selecionados), então eu sempre tenho o que perguntar e aprender. Não há falta de treinamento prático, sem dúvidas que não — e o treinamento teórico pode ser feito solitariamente. 

Pela minha análise pessoal (o famoso “tirei essa opinião da barriga”), dificilmente vale mais a pena fazer residência em psiquiatria do que fazer uma pós-graduação em psiquiatria — exceto se seu objetivo de vida for ser uma referência na especialidade, o que demandará muito mais esforço do que uma simples residência. Para os que querem ser psiquiatras medíocres, ou pelo menos para a grande maioria que não está disposta a pagar o preço de estar no topo (muitos acham que estão, poucos realmente estão), fazer uma boa pós-graduação e trabalhar será suficiente para que você seja um bom médico.

É claro que eu não acho que trabalhar após a graduação tenha o mesmo efeito sobre as habilidades técnicas do profissional que fazer a residência médica tem, mas o custo da residência pode ser muito alto — alto demais. E nem sempre ela parece entregar o que promete. Onde trabalho, no mesmo cargo em que estou, há cirurgiões, clínicos e intensivistas, com 3-5 anos de residência nas costas. Já dei plantão em pronto-socorro com cirurgiões com subespecialidades. Na clínica onde trabalho às vezes, atendo o mesmo número de pacientes e recebo a mesma quantia por consulta do que clínicos com subespecialidades. Ou seja, se o trabalho for para garantir seu sustento e o cenário for um serviço medíocre (sem intenção de ofender), não parece valer a pena gastar os preciosos anos de recém-graduado na residência médica. 

Desconfio, entretanto, que valha mais do que gastá-los fazendo podcasts e escrevendo em blogs.

Um comentário em “Vale a pena fazer residência médica?

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  1. Acho bacana ver as ideias de quem não tá só seguindo o caminho formar → fazer residência.
    Gostei demais do texto Nicolau!

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